sabe, eu vi o mundo acabar sete vezes
chorei em todas as guerras que estive e nunca soube fazer nada além de amar as flores
minha pele virou tristeza cotidiana, acho que você já conhece todas as minhas marcas
e o porquê de estarem ali em formas tão gritantes e assimétricas
ninguém nunca teve um coração forte o suficiente
ou até mesmo iluminado o suficiente
para acabar com eras inteiras de escuridão
então usei estrelas
todas que pude contar no céu
enquanto estávamos perdidas na noite
você disse que sou uma pessoa forte
mas forte foi você
por deixar seus olhos refletirem minha ruína
e mesmo assim não se assustar com a vista
enquanto eu encarava o chão, minha alma descompassada pedia:
por favor, não se assuste com minha mania de quebrar meu próprio coração
essa guerra que estala por trás do meu peito ainda me aprisiona
mesmo quando visto seu abraço e sinto que sou uma extensão da tua paz

eu vou melhorar. juro que vou.

queria que você entendesse que mesmo sem fé, acredito em você
como quem suplica para que seja diferente apenas mais uma vez
porque acreditei no amor quando você me dirigiu
aquelas palavras doces e carregadas de uma sinceridade ímpar
acreditei quando você me enxergou
não com o pesar habitual
nem com o olhar acorrentado de julgamentos
mas ali, me encarando, naquela madrugada, em silêncio
apreciando a vista, como se eu fosse uma história importante
pela primeira vez me senti mais do que poesia lida
talvez você tenha me interpretado de mil outras maneiras
diferentes daquelas que eu verdadeiramente sou
mas me senti feliz
porque você se importou
mesmo em silêncio, se importou
como quem repousa o olhar sobre meus medos
me escuta chorar pelo fim do mundo
e ainda assim consegue ser paz.

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canções de apartamento

deitadas sob a mesma lua eu ainda sinto você sendo banhada em ondas sinestésicas por todas as cores provenientes do céu. em uma devoção apaixonada ainda escrevo canções com seu nome nos refrões. toda lágrima vertida pelo meu coração eu transformo em verso e em cada verso débil e com pouca letra eu me deixo inteira, porque tu fostes embora, mas minha mania de ser infinita onde não mais me cabe ficou no mesmo lugar, fixada bem acima do meu orgulho.

aliás, orgulho se tornou apenas mais uma palavra em desuso no meu vocabulário depois da reforma que fiz dentro de mim para te abrigar, mas talvez não tenha sido suficiente. mudei manias, antigas falhas, tornei minhas palavras mais ternas e elas se fizeram gigantescas para que todo o amor que eu lhe tenho pudesse caber ali, naquele espacinho entre o “eu amo você” e “você é a garota mais linda que já tive o prazer de conhecer”, mas mesmo assim nunca seriam suficientes.

no ônibus a caminho do trabalho eu sinto o sol queimando minha pele, há tanta vida lá fora e desde que tu foi embora aqui dentro de mim ficou tudo tão deserto. não sinto calor, apenas sinto a luz e me sinto eterna como o universo. eu não entendo nada sobre a eternidade, ninguém nunca viveu o suficiente para testemunhar o eterno, mas eu sinto que fui eterna em você. eternidade é uma palavra deveras estranha, aliás. mesmo querendo tudo na mais absoluta beleza poética da felicidade, a da dor sempre me atraiu mais, e para ser bem realista, tudo que há de eterno está morto ou irá morrer alguma hora. o pedacinho de infinito no qual vivemos virou do avesso e meu coração, tão infinito quanto, seguiu na mesma direção e se perdeu.

reformei toda minha ortografia, incrementei meu vocabulário e de ti, naquela tarde de inverno, recebi apenas um ponto final. um único ponto final seguido de um silêncio ensurdecedor, mas para mim até mesmo teus silêncios são sinfonias extraordinárias e inesquecíveis. nós fomos extraordinárias e inesquecíveis dentro do nosso próprio espaço-tempo.

por Deus, eu ainda amo você.

tudo bem se tu teve que ir, às vezes as tempestades são fortes demais para serem enfrentadas mesmo e a minha é sempre devastadora. eu fiz o que pude para contê-la, mas falhei ao final de tudo, me desculpe. tu procurou abrigo dentro do teu próprio peito porque o meu às vezes fica devastado, denso e pesado demais para te guardar e proteger do mundo. embora me doa, te ver segura é o suficiente para me manter sã no meio de todo esse caos que é amar sendo uma pessoa inconstante. então vá e exista onde quiser, na tua outra cidade, no peito de outro alguém, nas noites da cidade ou em qualquer outro lugar, apenas exista sabendo que você merece sempre o melhor porque em um universo inteirinho e cheio de gente tu és singular e bela. prometo te manter eterna nas minhas palavras e cuidar para que elas nunca se desgastem.

talvez o amor seja mesmo tudo isso que dizem. até mesmo nas minhas cartas de amor mais infames, sou doce.

nem mais o sol se faz sentir

meus olhos estão vendados
os sentimentos não saem
a poesia morreu.
na casa ao lado da minha
a lâmpada fluorescente é lua nova,
os rostos felizes continuam a acreditar
que as linhas tortas da vida
no final levam a algum lugar.
quando a cidade toda adormeceu
pensei comigo mesma que
é enfadonho machucar os pés
num lugar ao qual você nunca pertenceu.
eu nunca pertenci a lugar nenhum
nem aqui e nem no plano metafísico
nem nas ruas empoeiradas onde ando
nem nos blocos de cimento
de uma rua chique qualquer no centro.
eu nunca fui de sorrisos
muito menos de lágrimas
sempre fui a inexpressão
o semblante fechado em face da morte
a cara de ninguém em face da sorte
o olhar perdido de quem nunca se achou
o peito destoante de quem nunca soube sentir
se é que isso é sentir.
nunca soube o que é ficar
mas aprendi o que é
quando alguém quer partir
isso me quebrou todos os ossos do corpo
fez doer todos os músculos do coração
meu amor tornou-se um sopro desde então
que me faz lembrar que nem tudo está morto
talvez nem mesmo a poesia

nem a hipocrisia
ou o desamor e as partidas
mas eu estou.
não sinto nem mesmo
a brisa fria
que entra pela janela
anunciando um novo dia
no qual também não existirei.
mas a despeito de tudo isso
as pessoas continuam a lutar
mais mortas do que vivas
lançando-se num oceano
de lixo cotidiano
comendo e sorrindo
indo e vindo
num ciclo incessante
de uma vida tênue.
a poesia não morreu
eu morri.
e é aqui
do alto da minha
a r r o g â n c i a
que desejo um bom dia
aos corajosos que
ainda conseguem sentir.
escrevo cada vez com

menos linhas
porque não posso desistir.
minhas palavras são
o motivo do meu não ir.

você cabe no que diz, sem tentar ser mais do que realmente é.

Eu vi minha vida estancar numa estrada com destino a lugar nenhum.

 

Eu ouvi sua voz clamando pelo meu nome em tons sopranos quando tudo que costumava ouvir era o som alto demais do meu coração se quebrando.

Eu encontrei um peito que mesmo sem jeito me acolheu e me tirou da multidão de sorrisos condescendentes.

Eu peguei sua mão enquanto meu antigo eu era subjugado e submetido a falsos laços e a falsas mentes.

Eu te olhei na esquina daquela rua desconhecida e lembrei que havia cansado de sofrer

Eu te enxerguei por dentro e me soltei da minha velha mania de não ser

Só pra segurar na tua mão.

E então consertar o que estava quebrado não era mais o assunto em questão

Eu queria algo novo, um novo eu, e por que não um novo coração?

Só que não podemos fazer nossas mágoas virarem pó.

Nós viramos, por dentro, desintegramos. Mas as mágoas não.

De tanto presenciarmos partidas, partidos somos nós

Em vários pedaços; agora um pouquinho mais racionais e doloridos, mas necessários.

 

um texto feito de dores e lembranças para se ler em dias desesperançosos

Acho que tinha uns onze anos quando meu pai saiu de casa. Eu estava deitada na cama naquele meio estado entre acordada e dormindo em que nos encontramos todos os dias ao amanhecer. Ouvi algumas vozes ao fundo e elas se elevavam gradativamente, assim como o medo dentro de mim. A voz mais grave jorrava xingamentos odiosos enquanto a mais aguda desferia acusações magoadas como socos que pesavam duas toneladas. Isso já havia se tornado rotina, mas até aquela manhã nenhum dos dois havia pronunciado a palavra “ir”.

 

Eu e meu pai costumávamos ir a muitos lugares. Ir à feira todas as manhãs, por exemplo. Eu amava sentir as mãos geladinhas dele segurando as minhas tão pequenas, amava a brisa da manhã e amava como o sorriso dele se iluminava toda vez que me olhava. Foi com ele que aprendi a ler e a andar de bicicleta, aprendi também a gostar de rock clássico e Dragon Ball Z. Eu costumava deitar em seu peito e pedir para ouvir histórias, e quando eu estava doente, ele era quem cuidava de mim. Eu costumava dizer que ele era o homem da minha vida e que não queria me separar nunca. Ele tinha aquela sensação de quentinho que dá ao sentir o amor e a proteção de alguém te invadindo o peito. Para mim “ir” era sinônimo de diversão, até aquele dia.

 

Eu fechei os olhos e pensei que se ignorasse a situação talvez ela desaparecesse, que nem meu medo do escuro. Mas não desapareceu. As vozes se exasperavam em cada canto da casa e eu as ouvia se aproximando cada vez mais. Ouvi a porta do guarda-roupas se abrir e mais meia dúzia de xingamentos e questionamentos. Eu já chorava baixinho quando ouvi o último e derradeiro som daquele dia: o da porta batendo.

 

Eu não ousei abrir os olhos. Sempre fui covarde demais, eu sei, mas eu ainda achava que tudo aquilo poderia ser um pesadelo, um daqueles bem realistas que nos deixam sem ar e depois que acordamos respiramos de alívio. Não foi. Senti minha mãe deitando ao meu lado e me abraçando. As lágrimas dela eram quentes e caiam no meu pescoço.

 

Depois daquele dia a casa ficou em silêncio por muito tempo.

 

A vida não parou, a moça da esquina continuou vendendo batata frita, eu ainda tinha escola e a matéria era equação do primeiro grau, os números estavam lá e estranhamente começaram a me confortar. Eu continuava respirando, com um pesar enorme, mas continuava. Todos seguiam suas vidas, e eu… eu só tentava fazer o mesmo, porém quando colocava os pés dentro de casa eu podia sentir que o mundo parava e se estagnava ali. Cortinas fechadas, ar abafado, escuridão total e um silêncio aterrorizante, a casa parecia um planeta inóspito, perdido em algum lugar escuro do universo, e seu núcleo era o coração partido de minha mãe. Às vezes eu podia jurar que ouvia o som de suas lágrimas caindo no chão do quarto. Como podia um outro ser humano partir o coração de um igual assim? Como podia a dor emocional ser tão física a ponto de fazer arder o corpo todo e nos adoecer? Acho que ali eu estava aprendendo sobre partidas e que a vida dói em todos nós.

 

Meu pai sumiu por meses e por meses eu fui o único mundo da minha mãe. Eu nunca soube como cuidar muito bem de ninguém, mas meu amor era tão grande que transbordava em carinhos em seu rosto cansado e em cada “mamãe, para de chorar, por favor, eu tô aqui”. Ela chorava mais, eu também. Ela chorou por meses e isso me levou a estudar biologia, sentada no pé de sua cama, só para descobrir como ela podia colocar tanta água para fora se não era um rio. Indagações dos onze anos, amigos.

Ela comia minhas comidas ruins e congelados, tomava banho duas vezes na semana e chorava o resto do tempo. Eu estudava pela manhã e passava o resto do dia com ela e o silêncio. Ninguém falava, ali só se sentia. Eu estava aprendendo sobre divisão no colégio, então peguei a dor dela para abrigar no meu peito também, pensava que assim, dividindo, talvez passasse mais rápido. Meu pai me ensinou a ler, ali com ela eu reaprendi. Eu lia suas expressões e ela não precisava mais fazer esforço algum para me explicar suas dores e anseios, eu sabia, aprendi a ler olhares. Minha mãe padecia em tristezas e por e-mails e cartas eu ficava sabendo da vida regada a mulheres e bebida do meu pai. Ali aprendi a sentir raiva.

Eu senti raiva por ele tê-la tocado com mãos tão sujas e ter feito pouco de toda a luta precisa dela para salvá-lo. Ali aprendi que nem todos podem ser salvos.

Senti raiva por ele ter esquecido a mim, senti raiva por ainda chorar todas as noites pela falta, senti raiva por ter que aguentar tudo nos ombros enquanto ele se divertia depois de ter quebrado corações de famílias inteiras, senti raiva quando o dinheiro acabou e eu não sabia o que fazer para alimentar uma casa aos doze anos, senti raiva quando soube que ele tinha outros filhos e estava presente na vida deles enquanto eu me fodia, senti raiva quando soube, tempos depois, que ele estava destruindo esses filhos como também destruiu a todos nós, senti raiva ao passar meus aniversários chorando todas as minhas dores e esperando por uma ligação que nunca veio, senti raiva por ter que carregar todos nas costas quando fui deixada sozinha e não sabia como me defender, senti raiva por ter que sentir dor só para proteger a todos. E QUEM PROTEGIA A CRIANÇA QUE NÃO SABIA AINDA A DIFERENÇA ENTRE TOQUES DE AFETO E AQUELES QUE TE RASGAM A ALMA? as pessoas são cruéis.

Eu vivi de raiva durante anos até descobrir que, às vezes, algumas pessoas não sabem amar. Elas estão destruídas e frias demais para um sentimento tão nobre. Meu pai era uma dessas pessoas e eu fui me tornando igual conforme os anos passavam, mesmo sem perceber.

Depressão é realmente assustadora, tanto quanto a vida; minha mãe afundava, eu me via tentando confrontá-la com cartinhas de amor feitas à mão e pintadas com giz de cera. Eu juro que, apesar da raiva, eu tinha tanto amor que achava que poderia curar o mundo de todas as dores se desse um pouquinho a cada pessoa que era importante para mim.

Em que momento exatamente deixamos de amar como crianças e passamos a ser frios? Em que momento nos tornamos monstros que destroem corações? Eu me perguntava se um dia seria como meu pai, e agora, olhando para mim mesma 10 anos depois, acho que fui, ou talvez ainda seja. A vida aconteceu. Nossos traumas vão se cruzando com os de outras pessoas e juntos se transformam em monstros enormes que, ao final de cada relacionamento falido onde, tentam habitar em nós, bem naquele espaço entre a dor e o vazio que a outra pessoa deixa. Se deixarmos, corremos o risco de machucar um amor vindouro, mas em troca esses monstros tão assustadores massageiam nosso orgulho, se alimentam dos nossos medos e nos dão uma falsa sensação de proteção.

Nossos monstros nos olham nos olhos e dizem que o amor é moda do século passado e que não temos mais que nos aprofundar em ninguém, talvez assim não precisemos reviver velhos traumas de infância ou de relacionamentos. Me livrar deles está sendo a coisa mais difícil que já fiz. Eles têm garras fincadas no centro do meu coração, e mesmo sabendo que isso me faz muito mal, tentar removê-las me causou um sangramento profuso. Eu não quero machucar pessoas, não quero mais despertar sentimentos tão ruins nelas, não quero ser responsável pela morte interna de ninguém, mesmo que digam por aí que machucar também é necessário pois faz crescer. Não quero ser meu pai. É certo que não somos apenas acertos e que a história de cada um se constrói na capacidade de aprender com as falhas, mas espero que não precisemos falhar tantas vezes para sermos bons. Pelo menos é com isso que eu conto. Eu quero amar a vida, eu quero amar as pessoas, mesmo que isso signifique sangrar até a morte da minha criança machucada que teme a vida e o amor. Por favor, eu quero amar.

 

E eu não quero ser meu pai.

oceanos não mais me afogam

Mãe, por que você grita?

Não vê que ninguém ouve?

Mãe, por que ele não fica?

E todas as coisas que ele falou sobre

Ficar?

 

Eu nunca fico agora

Temo que nunca possa

Quando todas as minhas máscaras caem

Me restam apenas células mortas

 

Ei, mãe, é noite

O outro eu baterá em minha porta

Ele me transformou em uma extensão

De todos aqueles pecados sujos

 

Todas as guerras do mundo

Toda a miséria e ódio

Violência e soberba

Se encontravam nos olhos dele

 

Era um olhar de morte

Que no fundo nunca matava

Mas fazia agonizar eternamente

Reduzia o meu peito a nada

 

Quase me pareceu com o inferno, mãe

O que você tanto temia

O que te fazia tremer as mãos

Aquele do qual me protegia

 

Passei por ele vezes incontáveis

Enquanto você passou a dizer

Em tons novos e detestáveis

Que não era nada pessoal

Mas salvação era individual

 

Eu sinto muito por tudo

Sinto por ter borboletas mortas no estômago

Uma alma morta há 10 anos atrás

 

E agora irreversível o estrago

Eu vejo em cores monocromáticas

Essa grande massa de possibilidades

Que você chama de mundo

 

Eu chorei só, mãe

E agora vejo palavras de amor

Mas não vejo amor algum

Pouco me restou

 

Nada suaviza

A brutalidade com que almas

São partidas todos os dias

Dentro de quatro paredes silenciosas

 

Não há maquiagem que encubra

A violência de ter que viver

Quando tudo por dentro já morreu

E você só quer descansar de ser

 

Me resta a beleza do desespero

Me resta a graça da dor

Ver como tudo isso vira arte

E sangra comigo pelos meus versos

 

Não tenho rima

Não tenho regras

Mas tenho as palavras

Que sempre estiveram comigo

Ao contrário de você.

 

 

 

fim é desespero e festa.

é o que se fala desde o começo,

é o endereço do que resta.

é o alívio que a gente compra fiado

e se fode depois, em desatino.

fim é o soprinho fino

quando o dente prende o lábio

anunciando a fuga do ar dos pulmões:

o fim das inspirações.

fim é uma revolução.

é o conforto das frases

que não querem ser eternas

e o confronto às fases que não são.

todo funeral é farto

porque toda partida

também é um parto.

e nenhum fim é absoluto, assim.

por isso que

eu, você e o universo

somos todas as vírgulas do mundo,

enfim.